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CARTA ABERTA AOS CIDADÃOS BRASILEIROS ONGs pedem socorro para conter a farra do boi em Santa Catarina A Quaresma e a Páscoa são períodos do ano amaldiçoados pelos protetores de animais em Santa Catarina, pois é nessa época que ocorre com maior freqüência a famigerada "farra do boi". Essa prática especista, covarde e violenta se constitui na soltura de um ou mais bois - na falta destes usam-se novilhos(as), bezerrões ou cavalos -, que são perseguidos por dezenas, às vezes uma centena de pessoas, sendo que a maior parte dos adultos que dela participam estão totalmente embriagados. É uma cena realmente deprimente. Embora a "farra do boi" tenha sido expressamente proibida por meio de Recurso Extraordinário, por força de acórdão do Supremo Tribunal Federal, na Ação Civil Pública de nº023.89.030082-0, e prevista como crime pela Lei 9.605/98, muitos setores da sociedade catarinense defendem a manutenção dessa prática como parte de uma "tradição cultural".
Polícia para quem precisa...
Estamos cansados de chamar a polícia para o cumprimento da lei e ela não fazer nada. Afirma que está indo para o local e nunca chega, provavelmente porque deseja evitar conflitos pessoais com vizinhos ou parentes farristas. Alega também falta de viaturas ou que há questões mais importantes para resolver, como perseguir bandidos. Mas, recentemente, não faltou à polícia viaturas ou contingente para reprimir violentamente um protesto contra o aumento nas tarifas de ônibus em Florianópolis, do qual várias pessoas saíram feridas.
Morrer e matar de fome, de raiva e de sede...
Os maus políticos também estimulam a "farra" dando bois de presente aos farristas em troca de votos. Tais políticos são os mesmos que votam pelo aumento de passagens, pela ocupação urbana desenfreada, pela destruição do meio ambiente. Destroem a vida dos farristas e lhes dão bois para expiar seus pecados, bois para pagar pelo exercício de seus "podres poderes".
Apologia ao crime
Há menos de um mês um jornalista manifestou em sua coluna, num jornal de ampla circulação, o desejo de assistir a uma farra. Quanta deseducação! Mas pior mesmo foi o diretor de marketing da Santur ter declarado publicamente ser a favor da "farra" e que - pasmem! - esta poderia se constituir numa atração turística! Este último já foi notificado judicialmente pela Procuradoria da República em Santa Catarina e deverá ser processado por apologia ao crime.
"Ignorância culta"
Também alguns professores universitários, sobretudo das áreas de Antropologia e História, defendem publicamente a "farra do boi" como tradição cultural. Além de paternalista e demagógica, tal postura expressa uma visão de ciência reducionista, pois não vêem seus defensores que estão justificando tal prática tomando como parâmetro o paradigma especista e antropocêntrico que domina nossa cultura e, é claro, suas áreas de conhecimento. Imersos nessa racionalidade antropocêntrica, esquecem-se esses doutores e doutoras de que aquele mesmo paradigma, responsável pela destruição das condições de vida no planeta, é apenas uma visão de mundo, uma razão, entre tantas outras. E se esquecem, sobretudo, de que o problema da razão é que por meio dela é possível justificar qualquer coisa, menos o seu próprio fundamento. A ciência deve questionar seus pressupostos filosóficos, rever suas "verdades" e redefinir as metáforas sobre as quais se ergue seu corpo de conhecimento. Caso contrário, não será ciência, mas fundamentalismo.
Panis et circensis! Precisamos de qualquer cultura?
A "farra do boi" é uma prática moralmente indefensável que estimula a violência e a covardia, pois submete seres sencientes ao sofrimento físico e psicológico. Mesmo quando não é severamente ferido ou mutilado, como ocorre na esmagadora maioria dos casos, o pobre animal, em sofrimento psicológico, tenta fugir e acaba morrendo afogado, por queda em despenhadeiro, ou abatido a tiros pela polícia. Além disso, já houve casos de perdas de vidas humanas (farristas e não farristas), destruição do patrimônio de pessoas contrárias à farra etc. A "farra" é, enfim, um grande "circo", cuja energia poderia ser canalizada para a reivindicação de direitos, expressões artísticas etc. Quem estimula a "farra" não é "amigo" do povo. Quem ama seu povo, dá-lhe educação, não "pão e circo". Lamentamos ter que protestar contra atitudes que desrespeitam leis, estimulam a violência e a covardia, tudo supostamente em nome do "gosto", da cultura, de alguns seres humanos. Mas essas pessoas defenderiam, com igual isenção, a manutenção de uma tradição cultural, caso fossem aprisionadas por algum povo canibal para lhe servirem de refeição? Vale a máxima: "pimenta nos olhos dos outros é colírio". Manifestações culturais envolvendo sofrimento sempre existiram. E sempre houve quem as defendesse. A manutenção de manifestações culturais desprovidas de preocupações de ordem ética não nos ajudará, entretanto, a construir um mundo melhor.
Profª Paula Brügger
Projeto "Amigo Animal" / Deptº de Ecologia e Zoologia / UFSC - Universidade Federal de Santa Catarina
Artigo publicado no site É O BICHO! (www.eobicho.org) em 27 de março de 2006
Da farra-de-homens mal-acostumados, contra bois indefesos Sônia T. Felipe Do boi e do homem voltamos sempre a falar, no Estado de Santa Catarina, a cada ano, com a aproximação das festas da ressurreição. Sempre a pretexto de se preservar a cultura e a tradição açorianas, trazidas para a Ilha de Santa Catarina, aficcionados cidadãos, rasgando a Constituição e ridicularizando a ética e a justiça, reúne-se, levando suas próprias crianças, tão vulneráveis à violência e à morte como o boi, para correr atrás de bois, em estado de pânico. Parece muito inocente, essa farra que mata jovens e meninos, todos os anos, erroneamente denominada de a farra do boi, pois, a bem da verdade, ela é simplesmente a farra de alguns poucos homens, com gosto de sangue a lhes anuviar o sabor da própria vida. O boi corre, exausto, faz investidas contra os que o maltratam, estaca, senta-se, bufa, as narinas dilatadas, o pulmão em sufoco, o coração em disparada, um toco ensangüentado no lugar da cauda. Coração, pulmões, músculos, e a desproporção entre a estrutura muscular de suas pernas e o volume do corpo, obrigado pela multidão a mover-se com velocidade, são o que de mais objetivo se apresenta aos sapiens, como indicadores da constituição vulnerável do bovino. Por natureza, esse animal não é de corrida, muito menos, de luta. Ele não tem garras nem presas. Não ataca a não ser em legítima defesa, não morde, nem fere, se deixado em paz. O volume de seu corpo, porém, excita os machos que fazem uma farra. Confrontar-se com tal volume parece propiciar-lhes o que lhes falta: virilidade. E esta não se mostra boa-coisa. É bruta. Machuca e mata. Investir contra os que o atacam, nem sempre resulta eficaz, para o boi. Para poder investir com sucesso, faltam-lhe os músculos típicos do arranque veloz e da corrida-de-fundo. Falta-lhe, ainda, treinador, massagista, fisioterapeuta, benesses dos reais lutadores humanos, que sobem às arenas do boxe, e das demais lutas nas quais homens confrontam-se fisicamente. Mas, não se trata apenas da constituição anatômica e fisiológica do animal, também de sua constituição psíquica. O boi investe contra esse outro animal que o provoca, não porque ache isso uma delícia de brincadeira. Ele o faz, tentando demover o agressor de aproximar-se demasiadamente do seu corpo. Afinal, um corpo enorme, pesando mais de meia tonelada, sustentado e transportado por quatro pernas pequenas e finas, com músculos impróprios para a luta, é tudo o que o animal tem, para mostrar ao homem que se excita em sua presença, que essa tradição não apenas é de pouco bom-gosto, mas cruel em sua origem, pois parte do suposto de que os animais são objetos da diversão de homens entediados. Bois são lentos ao caminhar. Grande é a queima de oxigênio para mover seu corpo, por isso ele se move com lentidão. Falta-lhe oxigênio. O mesmo nos acontece. Sofremos quando temos de nos deslocar em velocidade superior à da reposição de oxigênio. Por essa razão, comemoramos tanto o velocista olímpico, o maratonista. Pois o atleta força sua natureza a superar-se. A diferença é que ele escolhe o desafio e o custo de romper seus próprios limites biológicos. O boi não tem escolha. É simplesmente forçado a compor uma cena que jamais poderá lhe propiciar qualquer benefício. Enquanto os atletas treinam anos a fio sua fisiologia, para superar a condição natural e competir com seus iguais, na arte treinada, a maioria dos seres humanos não se dedica a nada disso, pois não vê benefício algum em gastar tanta energia, para compor a cena final da competição, e servir de espetáculo para os sedentários. Somos como os bois. Sem treino para o jogo. Qualquer esforço sobre músculos do nosso corpo, não utilizados nas atividades sedentárias diárias, resulta em falta de ar, pulsação acelerada, perda de líquido, dores horríveis durante o esforço desmesurado e no dia seguinte. Em nosso psiquismo a reação que se esboça é a de uma profunda angústia, medo de parada cardíaca, medo de sufocar, medo da dor. Sentamos na calçada, ofegantes. Mas, ninguém nos dá cutucadas nem chutes para que prossigamos. Tudo o que mais abominariam, caso alguém se atrevesse a fazer contra seus corpos, na farra-do-boi, esses homens fazem contra o animal. Toda a crueldade é praticada em nome da tradição, como se a defesa de um costume fosse um valor absoluto, mesmo quando o costume aparece aos olhos de todos os demais como brutal, violento, inútil, injusto, expressão de um atraso moral inqualificável, pois não faltam argumentos contrários aos mesmos, na mídia impressa, escrita e televisionada. Os açorianos, caso algum dia tenham brincado com bois soltos nas ruas, certamente o fizeram num tempo em que não havia mais nada para distrair a multidão aborrecida, a não ser os rituais religiosos. A farra é um ato não-religioso, fere os princípios mais básicos da moralidade humana, o sentido de justiça e o próprio conceito de humanidade que a tanto custo se tem procurado construir na natureza dos animais dotados de razão e sensibilidade. Os animais sensíveis não sentem apenas a dor, têm consciência e angústia do limite de seu corpo. A crueldade contra eles expressa simplesmente o nível de crueldade da qual o homem é capaz, contra os seres de sua própria espécie. Um país que vilipendia sua própria Constituição, que deixa os policiais observando as práticas de crueldade contra os bois sem levar preso quem farreia, julga-se acima da moralidade humana, acima dos padrões internacionais de civilidade, acima do dever de compaixão e de justiça. Nesse país, por conta de sua tradição hipócrita e indiferente ao sofrimento de quem sofre a crueldade, exatamente, perecem meninos, vítimas dessa farra contra vida, que, hoje, ao redor do planeta, só no Brasil se pratica com desdém, pois em outros lugares a morte vem pela mão do inimigo, não do que está próximo. No Brasil, há uma farra contra a vida dos seres vulneráveis à brutalidade alheia, que se estabelece a cada dia. Ora o boi é usado como arma para matar a criança, ora o automóvel, ou o hábito de consumir drogas fornecidas por um mercado de violência e morte. Em uma região apenas, de Santa Catarina, temos essa farra repulsiva, a repetir-se cada ano. O povo do resto do Estado envergonha-se de encabeçar, na quaresma, a lista dos mais violadores dos direitos animais, ao redor do planeta. Mas, a matriz cognitiva e moral da violência é de uma mesma natureza: sua matança em massa, nos centros de confinamento dos animais para o abate, e pela tortura contra os bois escolhidos para a farra dos mal-acostumados a uma tradição que apenas nos achincalha, nosso Estado está batendo todos os recordes internacionais de maldade contra os animais. Há alguém que sente orgulho disso? Jamais presenciamos qualquer animal praticando atos que excedam sua capacidade física natural. E, menos ainda, o fazem contra nós. Sempre que presenciamos uma cena dessas, esses animais estão em nosso poder e são forçados, por medo de chibatadas, medo da morte ou angústia artificialmente produzida, a fazerem o que, por livre e espontânea vontade jamais fariam. A farra dos homens contra o boi é uma farra andro-chauvinista, exclusiva do homem. Emoções fortes é o que esse procura, ao colocar um boi na jogada. As mesmas emoções, com nenhum prejuízo ético, esse homem pode conseguir correndo colina acima, para chegar por primeiro. Imagine se um boi o perseguisse colina acima! Farra, na qual uma das partes nada ganha e tudo perde, e outra se regozija é gozo, não é brincadeira. A perversão moral leva o homem a julgar que deve preservar a tradição que lhe assegura o privilégio de gozar às custas da dor e do sofrimento alheios. O estupro é uma prática sexual tradicional. A violência contra as mulheres, também. Não por coincidência, ambas são práticas tradicionais de homens, contra seres vulneráveis. Se seres superiores a nós em inteligência nos capturassem e nos levassem em gaiolas para seus territórios, nos usassem em brincadeiras aterrorizantes, incompreensíveis para nosso intelecto, certamente não expressaríamos em sua língua o sofrimento ao qual nos sujeitariam, mas, estarrecidos, constataríamos a existência de seres capazes da maldade, resultante do uso de sua superioridade intelectual e racional para troçar cruelmente de nós. O modo como toleramos a crueldade e extermínio de animais não-sapiens revela, lamentavelmente, o quanto toleramos a crueldade contra adolescentes nas ruas, negros, homossexuais, mulheres, idosos, pobres e sem-teto. Para mudarmos nossa relação com esses últimos, urge que nos demos conta do que fazemos a todos os seres que julgamos inferiores a nós. Ilha de Santa Catarina, 21 de março de 2006
(Sônia T. Felipe - Doutora em Teoria Política e Filosofia Moral, Co-fundadora do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Violência; voluntária do Centro de Direitos Humanos da Grande Florianópolis (1997-2001); co-autora de, A violência das mortes por decreto; O corpo violentado; Justiça como Eqüidade, Por uma questão de princípios. Coordena o Laboratório de Ética Prática, do Departamento de Filosofia da UFSC, professora e pesquisadora dos Programas de graduação e pós-graduação em Filosofia, e do Doutorado Interdisciplinar em Ciências Humanas, da UFSC, autora de dezenas de artigos em coletâneas nacionais e internacionais sobre ética animal, Membro Permanente do Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa e do Bioethics Institute da Fundação Luso-americana para o Desenvolvimento, Lisboa)
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